Guaranis

Karai Guarani na campanha "Povo Guarani, Grande Povo!" na aldeia Tey Kue, em Caarapó (MS).
Karai Guarani na campanha "Povo Guarani, Grande Povo!" na aldeia Tey Kue, em Caarapó (MS).
Nota: Se procura pela língua da família lingüística tupi-guarani, falada pelos guaranis, consulte Língua guarani.

O termo guaranis refere-se a uma das mais representativas etnias indígenas das Américas, tendo como territórios tradicionais uma ampla região da América do Sul que abrange os territórios nacionais da Bolívia, Paraguai, Argentina, Uruguai e a porção centro-meridional do território brasileiro.

São chamados povos (no plural) pois sua ampla população encontra-se dividida em diversos subgrupos étnicos dos quais os mais significativos em termos populacionais são as parcialidades Kaiowá, Mbyá, Nhandeva, Ava-Xiriguano, Guarayo, Izozeño e Tapieté. Cada um destes subgrupos possui especificidades dialetais, culturais e cosmológicas, diferenciando assim sua forma de ser guarani das demais.

Índice

[editar] História

Existem milhares de fontes históricas que tratam da trajetória dos povos guarani, sendo esta uma das etnias mais documentadas de todos os tempos. Apesar deste fato sua história bem como o primeiro contato desta etnia com os exploradores europeus não foi bem documentado.

Os próprios guaranis não possuíam à epoca uma linguagem escrita, logo toda sua história estava vinculada a uma complexa forma de transmissão do conhecimento através da tradição oral. Daquele período sabe-se que eram sociedades descentralizadas de seminômades de caçadores agricultures. Sua alimentação era baseada na caça e coleta, bem como no plantio diversas variedades de vegetais, entre este destacam-se os tipos de mandioca, batata, amendoim, feijão, milho, e mel.

Habitavam casas comunais de dez a dezenove famílias. Como os guarani modernos se uniam e organizavam-se em redes de parentesco cunhadas e atualizadas em relações mutualidade a partir de perspectivas cosmológicas partilhadas.

De acordo com o missionário jesuíta Martin Dobrizhoffer alguns destes grupos praticavam antropofagia, possivelmente dentro de complexos rituais funerais, para em seguida colocarem os ossos do morto em grandes panelas de cerâmica afixadas invertidas sob o solo.

[editar] Os guaranis no contato

Em boa parte das regiões litorâneas do sul e do sudeste do Brasil assim como na bacia dos rios Paraná e Prata foram as populações Guarani as primeiras a serem contatadas pelos europeus.

No início do século XVI, época dos primeiros contatos com os conquistadores europeus, a população Guarani provavelmente chegava ao número de 1,5 a dois milhões de pessoas, ocupando juntamente com outros grupos étnicos, em relações ora amistosas, ora belicosas.

Em 1511, o navegador espanhol Juan de Solis comandou a primeira expedição européia a entrar no Rio da Prata, o estuário do Paraná ou Paraguai, seguido pela expedição de Sebastião Caboto em 1526 . Em 1537 Gonzalo de Mendoza chegou ao Paraguai pelo atual território do sul do Brasil, e em seu retorno fez contato com um grupo Guarani fundando Asunción que séculos depois se tornou a capital do Paraguai.

Na medida em que avançavam continente a dentro as expedições de conquista de Espanha, eram encontradas diferentes populações Guarani em territórios anexos aos quais os espanhóis chamaram de 'províncias' e nominando-as conforme conheciam os nomes das populações que encontravam "Karió, Tobatin, Guarambaré, Itatin, Mbaracayú, gente do Guairá, do Paraná, do Uruguai, os Tape... Estas províncias abarcavam um vasto território que ia da costa atlântica sul de São Vicente, no Brasil, até a margen direita do rio Paraguai, e desde o sul do rio Paranapanema e do grande Pantanal, ou Lago dos Jarayes, até as Ilhas do Delta junto da atual cidade de Buenos Aires" (Bartolomeu Melià, 1991)

Gonzalo de Mendoza tornou-se o primeiro governador do território espanhol do Guayrá iniciando uma política de casamentos entre seus subordinados europeus e mulheres guarani dos grupos locais, que deu início ao que mais tarde seria denominada a nação paraguaia. Ao mesmo tempo é acelerado o processo de escravidão de grupos autoctones submetidos para mão de obra de todos os tipos.

[editar] Nominações primevas

Os cronistas dos prelúdios do período colonial denominaram "guaranis" todas as populações que partilhavam de uma mesma língua, compreendida em todas as províncias e em grande parte, semelhante à língua falada pelos índios tupi do litoral. Cada agrupamento humano por sua vez fora denominado separadamente a partir do nome de xamãs, líderes guerreiros e figuras de prestígio entre estes. Também era comum a denominação dos grupos com os nomes dos rios e dos lagos em cujas margens habitavam.

Durante mais de quatrocentos anos de referências escritas sobre os Guarani, muitos nomes alternativos têm sido empregados para identificar estes vários povos, bem como para indicar suas visíveis diferenças.

Em grande medida influenciados pelas referências dos índios tupis os colonizadores da América Portuguesa chamaram os guaranis de araxás, araxanes, cainguás, carijós e ouitatins. Na América Espanhola estes mesmos grupos eram chamados de Carios, Chandules, chandrís e landules. A despeito das denominações exógenas cada subgrupo possui sua própria forma de autodenominação, sendo que todos eles se reconhecem no termo avá ou avaeté kuery que significa respectivamente "homem" e "homens verdadeiros".

[editar] Xamãs profetas entre bandeirantes e encomenderos

Combate entre bandeirantes e índios em Moji das Cruzes, tela de Jean Baptiste Debret, 1834
Combate entre bandeirantes e índios em Moji das Cruzes, tela de Jean Baptiste Debret, 1834

Neste primeiro período da colonização, movimentos de insureição em massa foram registrados por diversos administradores coloniais. De profundo caráter religioso, estes levantes eram em grande parte conseqüência da presença de grandes xamãs-profetas, os karaí, que com a força de suas palavras convenciam multidões a abandonarem as vilas da colonização espanhola e seguirem dançando e cantando com o intuito de alcançar a liberdade na Terra Sem Males (Yvy Maraey).

Em 1579, o levante liderado pelo karaí chamado Oberá, também grafado Overá (aquele que brilha), pôs em grandes riscos o projeto de colonização espanhola na região de Arambaré. Por onde quer que passasse Oberá era seguido por uma multidão cada vez maior de indígenas, que após sua presença recusavam-se terminantemente a servir os espanhóis. Karaí Oberá, prometendo a todos a liberdade, realizava grandes rituais de desbatismo, onde os chamados "guaranis civilizados" renunciavam aos votos e aos nomes da cristandade, recebendo outro nome guarani. Seguindo o conselho dos poderosos karaí, multidões dançavam e cantavam ininterruptamente durante dias .

Família guarani capturada por caçadores de índios escravistas, tela de Jean Baptiste Debret, 1830
Família guarani capturada por caçadores de índios escravistas, tela de Jean Baptiste Debret, 1830

Partindo das colônias do litoral do atual estado de São Paulo, o movimento luso-paulista das Bandeiras, de caráter expansionista e escravocrata, caiu como um flagelo sobre as populações Guarani, primeiramente sobre aquelas que habitavam os territórios próximos ao rio Paranapanema, depois adentrando mais e mais no continente. Aos grupos sobreviventes restava algumas opções: rebelar-se contra uma ou mesmo contra as duas nações européias que invadiam seus territórios, iniciar longas peregrinações buscando a proteção de distantes florestas e pântanos de difícil acesso ou ainda se submeterem a pacificação tornando-se escravos dos bandeirantes luso-paulistas ou servos dos espanhóis encomenderos.

Com o avanço da empresa colonial, diferentes grupos autóctones se tornaram peças das disputas e joguetes por recursos e territórios de Portugal e Espanha. Cada um dos lados buscava de todas as formas incitar os grupos que eram seus aliados a fazer guerra contra seu adversário europeu e aos indígenas a este coligados - A máxima romana "dividir para conquistar" ganhou estatuto de regra como meio de limpeza étnica na colonização no novo mundo. Ao mesmo tempo uma série de epidemias trazidas da Europa se alastraram rapidamente pelo continente eliminando as populações autóctones e devastando províncias inteiras.

[editar] Os guaranis das Missões e os Ka'ayguá

Ruínas da catedral de São Miguel, um dos sete povos das Missões fundado por Guarani e jesuítas em 1632
Ruínas da catedral de São Miguel, um dos sete povos das Missões fundado por Guarani e jesuítas em 1632

Em 1640 a região do Paranapanema já se encontrava despovoada, todos seus habitantes originais haviam desaparecido, a maioria escravizada pelos bandeirantes havia sido levada para a vila de São Paulo de Piratininga ou para a vila de São Vicente enquanto outra parte buscou refúgio nos territórios e nas florestas ao sul. Alguns ainda, talvez em fuga, acabaram sendo encontrados por membros da Companhia de Jesus, e uma parte dos contatados provavelmente foi convencida pelos jesuítas a buscar abrigo em suas Reduções.

Agindo como soldados os jesuítas tinham um único objetivo - converter o maior número de selvagens possível, obrigá-los a mudar seu estilo de vida e aceitar a religião católica como única forma de salvação. No ano de 1743, mais da metade da população da bacia do Prata, aproximadamente 142 mil índios, viviam nos povoados missioneiros. Uma vez mais inúmeros xamãs-profetas karaí surgiriam das matas até as missões, cercados por inúmeros seguidores, rivalizando em retórica e poder com os padres jesuítas e se tornando um obstáculo para a conquista espiritual. Não tardou para que os jesuítas ultrajados incitassem os índios reduzidos contra os karaí que chamavam abertamente de demônios e de feiticeiros.

Das diferentes trajetórias surgiram novas distinções culturais entre os Guarani. Com o crescimento das Reduções Jesuíticas surgiria a figura dos Guarani Missioneiros, que a partir do sincretismo com elementos jesuíticos, dariam forma e cor à utopia cristã-ameríndia das Missões. Já as populações guarani que se refugiaram em florestas, montes e pântanos, escapando do alcance dos bandeirantes, bem como da submissão aos encomenderos espanhóis ou às missões jesuíticas ficaram conhecidas pela exonominação genérica de Kainguá, Kaaiguá, Cainguá ou Ka'ayguá - Todos esses termos derivados da palavra guarani ka'aguyguá, "habitantes das matas". Esta provavelmente é também a origem do nome de um dos atuais subgrupos Guarani, os Kaiowá, apesar destes provavelmente não serem os únicos grupos da atualidade descendentes daquelas populações não submissas.

No entanto, é grande a probabilidade que os chamados "habitantes das matas" nunca tenham perdido totalmente o contato com os guarani missioneiros, mantendo de alguma forma intercâmbios de bens, informações e até mesmo de pessoas através do parentesco com estes. Esta é uma das explicações encontradas para a apropriação de instrumentos como o violão (mbaraká) e a rabeca (ravé), não só utilizados até hoje pelos Mbyá-Guarani, como também considerados pelos próprios como parte de sua tradição e até mesmo originados em sua cultura.

[editar] Atualidade

A antiga e intensa política de ocupação, dizimou a população indígena, todavia as populações desta etnia ainda mantém fortes indícios de unidade lingüística e cultural, desenvolvendo sempre formas estratégicas relacionais diante das realidades nacionais com as quais são obrigados a conviver.

As populações guaranis contemporâneas vivem em pequenas reservas, acampamentos a beira de rodovias ou habitam ainda espaços geograficamente isolados. Suas principais atividades econômicas são a confecção e a venda de artesanato - cestaria com taquara e cipó, estátuas em madeira e colares com sementes nativas - a coleta de raízes, ervas e frutos silvestres e o plantio de suas sementes tradicionais.

Apesar da baixa populacional (comparada ao momento do contato) com exceção das áreas localizadas nos atuais estados do Uruguai e no centro da Argentina os Guarani seguem mantendo a configuração de seus territórios no período colonial. A despeito do processo de extermínio que sofreram, estas populações vêm se recuperando demograficamente constituindo uma das minorias que invisibilizadas nos diversos contextos em que se encontram, têm de lidar com o problema do aumento demográfico nos regimes de confinamento impostos pelos estados nacionais.

“Três aspectos da vida Guarani expressam uma identidade que dá especificidade, forma e cria um "modo de ser guarani": a) o ava ñe'ë (ava: homem, pessoa guarani; ñe'ë: palavra que se confunde com "alma") ou fala, linguagem, que define identidade na comunicação verbal; b) o tamõi (avô) ou ancestrais míticos comuns e c) o ava reko (teko: "ser, estado de vida, condição, estar, costume, lei, hábito") ou comportamento em sociedade, sustentado em arsenal mítico e ideológico. Estes aspectos informam ao ava (Homem Guarani) como entender as situações vividas e o mundo que o cerca, fornecendo pautas e referências para sua conduta social” (Susnik, 1980:12).

[editar] Fontes

  • CADOGAN, Leon. Ayvu rapyta : textos míticos de los Mbyá-Guaraní del Guairá. São Paulo : USP, 1959. 218 p.
  • CLASTRES, Hélène. Terra sem mal : o profetismo Tupi-Guarani. São Paulo : Brasiliense, 1978.
  • CLASTRES, Pierre. O grão-falar. Mitos e cantos sagrados dos índios guarani. Arcádia, Lisboa, 1977.
  • CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o Estado (pesquisas de Antropologia Política). Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1978.
  • LADEIRA, Maria Inês & AZANHA, Gilberto. Os índios da Serra do Mar. Centro de Trabalho Indigenista, São Paulo, 1988.
  • MELIÁ, Bartomeu. El guaraní : esperiencia religiosa. Assunção : Ceaduc/Cepag, 1991. 128 p.
  • NIMUENDAJÚ, Curt. As lendas da criação e destruição do mundo como fundamentos da religião dos Apapocúva-Guaraní. São Paulo : Hucitec ; Edusp, 1987. 156 p.
  • SCHADEN, Egon. Aspectos fundamentais da cultura Guaraní. São Paulo : EPU ; Edusp, 1974. 208 p. Originalmente Tese de Livre Docência, São Paulo : USP, 1954.
  • SUSNIK, Branislava. Los aborigenes del Paraguay. V. 2: Etnohistoria de los Guaranies. Assunção : Museo Etnográfico “Andres Barbeiro”, 1982.

[editar] Ver também

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[editar] Ligações externas


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